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Os Santos dos Últimos Dias acreditam em salvação pelas obras ou pela Graça do Senhor?

Poucos versículos do Livro de Mórmon geram tanto debate quanto 2 Néfi 25:23. Ele é, provavelmente, a passagem mais citada quando o assunto é a relação entre graça e obras entre as escrituras usadas por membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e também um dos mais mal interpretados.

O texto diz:

“Pois trabalhamos diligentemente para escrever, a fim de persuadir nossos filhos e também nossos irmãos a acreditarem em Cristo e a reconciliarem-se com Deus; pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer.”

Para muitos leitores, dentro e fora da Igreja, esse versículo parece sugerir que a graça de Cristo só entra em ação depois que a pessoa já fez “tudo o que podia” para se salvar sozinha. Nessa leitura, a salvação dependeria primeiro do esforço humano, e a graça seria apenas o complemento final, uma espécie de bônus que Deus concede a quem já se esforçou o suficiente.

Mas será que é isso mesmo que Néfi quis dizer? E é isso que os Santos dos Últimos Dias realmente ensinam sobre o assunto?

O problema com “depois”

A confusão está concentrada em uma única palavra: “depois”. Em português, assim como em inglês, “depois” costuma indicar uma sequência temporal, primeiro acontece uma coisa, depois outra. Se for lida dessa forma, a frase pareceria dizer que a graça age somente depois que a pessoa esgota todo o seu próprio esforço.

O presidente Dieter F. Uchtdorf, então segundo conselheiro na Primeira Presidência, abordou exatamente essa dúvida no discurso “O Dom da Graça“, apresentado na conferência geral de abril de 2015:

“No entanto, pergunto-me às vezes se interpretamos mal a parte ‘depois de tudo o que pudermos fazer’. Precisamos compreender que ‘depois’ não é o mesmo que ‘por causa de’. Não somos salvos ‘por causa de’ tudo o que podemos fazer. Algum de nós já fez tudo o que pode fazer? Deus espera até que tenhamos despendido todos os nossos esforços para depois intervir em nossa vida com Sua graça salvadora?

Muitas pessoas se sentem desanimadas por constantemente se sentirem abaixo das expectativas. Elas sabem por si mesmas que “o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Elas erguem sua voz com Néfi, que proclama: “Minha alma se angustia por causa de minhas iniquidades”.

Estou certo de que Néfi sabia que a graça do Salvador permite que vençamos o pecado e nos capacita a fazê-lo. É por isso que Néfi trabalhou tão diligentemente a fim de persuadir seus filhos e seu povo “a acreditarem em Cristo e a reconciliarem-se com Deus”.”

Em outras palavras: se a graça só chegasse depois que alguém completasse cada esforço possível, ninguém jamais seria salvo, porque nenhum ser humano consegue fazer “tudo o que pode fazer” de forma perfeita e completa.

A própria pergunta retórica de Uchtdorf já aponta para outro caminho de leitura: talvez “depois de tudo o que pudermos fazer” não signifique uma condição prévia, mas sim algo mais próximo de “apesar de tudo o que pudermos fazer” ou “mesmo com tudo o que pudermos fazer”.

O que a língua do século 19 sugere

Essa segunda leitura não é apenas uma tentativa moderna de suavizar o versículo. O Livro de Mórmon foi publicado em 1830, e o inglês da época usava a expressão “after all we can do” de um jeito que soa estranho aos ouvidos contemporâneos, mas que era comum em textos religiosos e seculares daquele período, com o sentido de “apesar de” ou “mesmo depois de”, e não como uma sequência estrita de causa e efeito.

Comentaristas que estudaram o uso dessa expressão em obras cristãs e até em textos sobre botânica e gramática do início do século 19 apontam que ela raramente, ou nunca, era empregada com o sentido de “somente por causa de”.

Um exemplo de 1838 ilustra bem isso: um texto da época afirma que “o céu é um dom gratuito depois de tudo o que pudermos fazer”. Do ponto de vista puramente linguístico, se o céu só fosse gratuito depois que a pessoa fizesse tudo o que pudesse, ele não seria realmente gratuito, seria como anunciar que uma air fryer é grátis mediante uma doação de R$ 750.

O anúncio não faz sentido nenhum se lido dessa forma; só funciona se “depois de tudo o que pudermos fazer” significar “apesar de” ou “mesmo com” tudo o que a pessoa fizer, o produto (ou, no caso, a salvação) continua sendo um presente, não uma compra.

Ou seja: para um leitor da época em que o Livro de Mórmon foi publicado, a frase soaria mais como “mesmo com tudo o que pudermos fazer, ainda assim é pela graça que somos salvos”, reforçando a insuficiência do esforço humano, e não o contrário.

O que o restante do Livro de Mórmon ensina

Interpretar 2 Néfi 25:23 como uma defesa da salvação pelas obras também entra em conflito direto com outras passagens do próprio livro, incluindo alguns versículos poucos parágrafos antes, no mesmo capítulo. Em 2 Néfi 25:20, Néfi já havia declarado:

“(…) não há outro nome dado debaixo do céu mediante o qual o homem possa ser salvo, a não ser o deste Jesus Cristo do qual falei.”

O rei Benjamim ensina algo semelhante em Mosias 3:17:

“E digo-vos ainda mais, que nenhum outro nome se dará, nenhum outro caminho ou meio pelo qual a salvação seja concedida aos filhos dos homens, a não ser em nome e pelo nome de Cristo, o Senhor Onipotente.”

E o profeta Helamã reforça o mesmo princípio em Helamã 14:13, ao ensinar que quem crer no nome de Cristo se arrependerá de seus pecados “e assim terá remissão deles por meio dos méritos dele”. O peso está sempre nos méritos de Cristo, não nos méritos de quem crê.

Lidos em conjunto, esses versículos deixam claro que uma interpretação de 2 Néfi 25:23 baseada na salvação pelas obras simplesmente não se sustenta dentro do próprio Livro de Mórmon. Não é assim que os primeiros leitores teriam entendido o texto, e não é assim que o restante do livro trata o tema.

Então por que a obediência importa?

Se a graça é um dom e não um prêmio conquistado, por que a Igreja segue ensinando a importância de guardar os mandamentos, dos convênios e das ordenanças do templo? O próprio Uchtdorf responde a essa pergunta no mesmo discurso:

“Irmãos e irmãs, obedecemos aos mandamentos de Deus por causa de nosso amor por Ele! (…) Portanto, nossa obediência aos mandamentos de Deus vem como resultado natural de nosso amor e nossa gratidão infinitos pela bondade de Deus.”

A obediência, nessa perspectiva, não é o preço de entrada para a salvação, mas a resposta natural de quem já recebeu, ou está aprendendo a receber, o dom da graça. É o “tudo o que pudermos fazer”: não uma barganha com Deus, mas o esforço sincero de quem já ama a Cristo e deseja se tornar mais parecido com Ele.

Uma questão de tradução, não só de teologia

Vale lembrar que “depois de tudo o que pudermos fazer” é a tradução oficial da Igreja para o português da frase “after all we can do”.

Assim como em inglês, a ambiguidade da palavra “depois” existe também na nossa língua, e é justamente por isso que discursos como o de Uchtdorf são tão úteis: eles esclarecem, com a autoridade de um apóstolo falando em conferência geral, qual é o sentido pretendido pela doutrina da Igreja, independentemente de como a frase possa soar à primeira leitura.

No fim, o versículo não diz que a graça vem depois que fizermos por merecer. Ele diz que, mesmo depois de fazermos tudo o que está ao nosso alcance, e sabendo que isso nunca será suficiente, ainda assim é pela graça de Jesus Cristo que somos salvos.

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Post original de Maisfé.org

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