O truque de Neemias para convencer um rei pagão a ajudá-lo
Neemias estava em Susã, no coração do Império Persa, quando recebeu a pior notícia possível: Jerusalém, a cidade de seus antepassados, estava em ruínas, seu muro derrubado e suas portas destruídas pelo fogo (ver Neemias 1:1–3). Ele “sentou-se e chorou, e lamentou por alguns dias; e esteve jejuando e orando perante o Deus dos céus” (Neemias 1:4).
Só que, com a dor ainda fresca e um motivo urgente para agir, Neemias não correu para pedir ajuda ao rei. Ele esperou. Do mês de Quisleu, quando recebeu a notícia, até o mês de Nisã, quando finalmente contou tudo a Artaxerxes (Neemias 2:1), se passaram meses.
Por que esperar tanto tempo para falar sobre algo que, evidentemente, lhe importava tanto? Parte da resposta está em um detalhe que passa despercebido: a religião dos governantes persas aquemênidas, que mais tarde ficaria conhecida como zoroastrismo.
O momento certo para pedir um favor
O mês de Nisã não foi escolhido por acaso. Era nele que acontecia o Nowruz, o ano-novo persa, e, durante essa celebração, era tradição que o rei concedesse presentes ou atendesse pedidos de quem se apresentasse diante dele. Neemias, ao que tudo indica, esperou justamente pelo Nowruz, sabendo que suas chances de ser atendido seriam muito maiores naquele momento do calendário.

As palavras exatas para tocar um rei zoroastrista
Mas o timing não foi a única estratégia de Neemias. Quando finalmente é questionado por Artaxerxes sobre sua tristeza, ele responde: “Como não estaria triste o meu rosto, estando a cidade, o lugar dos sepulcros de meus pais, assolada, e tendo sido consumidas as suas portas a fogo?” (Neemias 2:3).
Repare nas duas imagens escolhidas: sepulcros e fogo. Não é coincidência, são exatamente os dois elementos mais sagrados para um zoroastrista.
Para os zoroastristas, a terra era considerada sagrada, uma representação da divindade Armaiti. Por isso, seus túmulos eram esculpidos em rocha, de forma que nenhuma parte do corpo tocasse o solo; deixar um túmulo mal cuidado, exposto a animais que pudessem espalhar ossos pela terra, era visto como um pecado grave.
Já o fogo representava Ahura Mazda, a principal divindade zoroastrista, e jamais deveria ser corrompido, nem mesmo com a queima de corpos. E como as portas de uma cidade antiga eram normalmente defendidas até o fim, um incêndio ali quase sempre significava que também houve corpos queimados no processo.
Ao mencionar sepulcros profanados e portas consumidas pelo fogo, Neemias não estava apenas descrevendo uma tragédia pessoal, estava falando exatamente a língua religiosa que tocaria o coração de Artaxerxes. E funcionou: o rei não só ouviu seu pedido como o enviou a Jerusalém com cartas de proteção e madeira para a reconstrução (Neemias 2:4–8).
Neemias não foi o único a usar essa estratégia
Essa forma de se conectar com alguém por meio de suas próprias crenças aparece novamente nas escrituras. Ao pregar para os atenienses politeístas, Paulo cita o altar que eles haviam erguido “Ao deus desconhecido” e usa até os próprios poetas gregos para apresentar o evangelho: “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Porque somos também sua geração” (Atos 17:23–28).
No Livro de Mórmon, Ammon faz algo parecido ao ensinar o rei Lamôni. Em vez de descartar a crença lamanita no “Grande espírito”, ele parte exatamente dela: “Crês tu que existe um grande espírito? E ele respondeu: Sim. E disse-lhe Ammon: Esse é Deus” (Alma 18:24–28). A partir dessa ponte, Ammon consegue ensinar Lamôni sobre a Criação, a Queda e a Redenção pelo Salvador.

“A verdadeira irmandade dos homens”
Neemias, Ammon e Paulo têm algo em comum: nenhum deles ignorou o que a outra pessoa já acreditava. Pelo contrário, usaram esse conhecimento como ponto de partida para se conectar e, a partir daí, ensinar.
Talvez a maioria de nós nunca precise convencer um rei estrangeiro a financiar a reconstrução de uma cidade. Mas o princípio continua valendo: entender genuinamente aquilo em que a outra pessoa acredita é o primeiro passo para se conectar com ela, não para manipulá-la, mas para realmente ser compreendido e, quando for o caso, ensinar com respeito.
O presidente Russell M. Nelson resumiu bem esse princípio: “Só a compreensão pela verdadeira natureza paterna de Deus pode produzir o apreço pleno da verdadeira irmandade dos homens. Esse entendimento inspira o desejo de construir pontes de cooperação ao invés de muros de isolamento. […] A intolerância gera desentendimento; a tolerância sobrepuja os desentendimentos. A tolerância é a chave que abre a porta para a compreensão e o amor mútuos.”
Fonte: Scripture Central
Veja também
Post original de Maisfé.org
O post O truque de Neemias para convencer um rei pagão a ajudá-lo apareceu primeiro em Portal SUD.
