Como escolher um terapeuta que respeite sua fé e seus valores
Um terapeuta não precisa compartilhar das mesmas crenças de seu paciente, mas deve respeitá-las e evitar transformar a terapia em uma forma de persuasão.
Nas últimas duas décadas, procurar um psicoterapeuta para lidar com dificuldades emocionais, de saúde mental ou nos relacionamentos tornou-se algo mais aceito socialmente.
Como terapeuta há mais de 15 anos, tenho observado os benefícios dessa mudança: pessoas que enfrentam desafios profundamente pessoais têm conseguido se recuperar de feridas emocionais, fortalecer seus relacionamentos e desenvolver habilidades para lidar com situações difíceis. Muitos pacientes que decidiram incorporar seus valores espirituais à terapia também fortaleceram sua conexão com Deus e sua confiança no Salvador.
Ao mesmo tempo, muitos observadores têm apontado que o campo da saúde mental, em vez de se apoiar principalmente em pesquisas que possam ser reproduzidas, tem se concentrado cada vez mais em questões políticas e ideológicas, especialmente em ideologias fundamentadas na teoria crítica e no ativismo por justiça social.
Isso aparece de maneira particularmente evidente em muitos programas de formação de terapeutas, nos quais os alunos frequentemente aprendem a enxergar o poder como uma das principais lentes para compreender a sociedade e o mundo como dividido entre dois grandes grupos: opressores e oprimidos.
Em vez de ajudar os pacientes a reconhecer como podem lidar com seus próprios sintomas, alguns estudantes podem aprender que o sofrimento mental é frequentemente resultado de sistemas opressivos que precisam ser derrubados antes que os pacientes possam realmente se tornar saudáveis. Isso pode deixá-los com um sentimento de impotência e de que são vítimas das circunstâncias.
Além disso, os estudantes de hoje estão inseridos em uma cultura que sugere que o segredo para o bem-estar mental está em seguir os próprios sentimentos, especialmente aqueles relacionados a sexo e gênero, a fim de encontrar seu “eu autêntico”. Essa visão de mundo se reflete em muitas áreas da formação e das orientações profissionais em saúde mental.
Se você está pensando em fazer terapia ou procurando um terapeuta para seu filho, encontrar o profissional adequado em um ambiente assim pode parecer uma tarefa difícil. Então, como identificar um terapeuta de confiança que possa ajudá-lo a alcançar seus objetivos de saúde mental e, ao mesmo tempo, respeitar seus valores, em vez de impor uma agenda pessoal ou política?
Veja alguns pontos que podem ajudar na hora de avaliar possíveis terapeutas para você ou para seu filho.

Entenda a atuação e a ética do terapeuta
Primeiro, é importante entender exatamente quais problemas determinado terapeuta está qualificado para tratar e como conduz o tratamento. O fato de um profissional possuir licença para atuar não significa necessariamente que ele tenha as habilidades específicas para lidar com suas necessidades ou que seus valores sejam compatíveis com os seus.
Uma terapia eficaz deve envolver aquilo que a própria palavra sugere: trabalho para desenvolver habilidades e realizar mudanças significativas nos pensamentos, comportamentos e perspectivas, de acordo com os valores do paciente.
Não se trata apenas de ser ouvido, receber validação ou falar sobre sentimentos. Uma boa terapia envolve estabelecer objetivos em comum e contar com um profissional que utilize uma abordagem teórica e terapêutica adequada para ajudar o paciente a avançar em direção a esses objetivos.
Além disso, a relação entre terapeuta e paciente é uma parte fundamental do processo. O paciente deve se sentir respeitado, mas não deve esperar que o terapeuta concorde com tudo o que diz, assim como não deve se sentir obrigado a concordar com o terapeuta.
Um bom profissional pode, em determinados momentos, questionar as suposições, os comportamentos ou as perspectivas do paciente quando isso contribui para os objetivos estabelecidos. Porém, não deve pressioná-lo a adotar seus valores pessoais ou sua visão de mundo.
Também é importante entender a diferença entre life coaching e terapia. Terapeutas são profissionais regulamentados, precisam cumprir determinados requisitos de formação e padrões éticos e podem diagnosticar e tratar transtornos de saúde mental. Já a atividade de life coach não possui a mesma regulamentação e não autoriza o profissional a oferecer tratamento de saúde mental.
A presença digital do terapeuta também pode oferecer pistas sobre sua personalidade e abordagem profissional. Quando um terapeuta cita a si mesmo com frequência ou publica muitas fotos pessoais nas redes sociais, por exemplo, esses padrões podem ajudar a entender aquilo que ele costuma enfatizar.
Além disso, caso o terapeuta compartilhe muitas informações pessoais nas redes sociais, vale lembrar que alguns códigos de ética profissional recomendam cautela com esse tipo de exposição.
Se o profissional utiliza suas próprias experiências para influenciar as decisões e crenças de possíveis pacientes, isso pode ser um sinal de alerta. Um exemplo seria um terapeuta que se afasta de sua religião, publica críticas a ela nas redes sociais e, depois, divulga seu trabalho com pessoas que enfrentam crises de fé, especialmente quando esses pacientes ainda não decidiram se permanecerão ou não em sua religião.
Outro exemplo seria um profissional que compartilha publicamente suas experiências com o divórcio e, posteriormente, parece tratar o casamento com pouca importância ao aconselhar pacientes. Essa abordagem pode não ser adequada para pessoas que desejam trabalhar para superar seus problemas conjugais em vez de recorrer ao divórcio.

Investigue qualificações e experiências
Se possível, converse brevemente com o terapeuta antes de iniciar o tratamento. Explique os objetivos que gostaria de alcançar e pergunte se, e como, ele pode ajudá-lo nesse processo.
Pergunte também como ele trabalha com pacientes cujas crenças políticas, ideológicas ou religiosas são diferentes das suas.
Observe ainda as organizações às quais o terapeuta é afiliado. Uma lista de associações profissionais pode parecer impressionante, mas algumas organizações podem dar mais atenção ao ativismo do que à ciência.
Pesquise essas instituições e veja se suas posições são compatíveis com suas crenças e seus valores. Você também pode perguntar diretamente ao terapeuta qual é sua opinião sobre determinadas posições dessas organizações que sejam importantes para você.
Lembre-se também de que o simples fato de um terapeuta listar determinado problema entre suas áreas de atendimento não significa necessariamente que ele seja especialista naquele assunto.
Desconfie de listas excessivamente extensas de áreas de tratamento, especialmente quando se trata de profissionais jovens ou que estão começando a carreira. Pergunte qual formação, certificação ou experiência o terapeuta possui em relação à questão que você deseja tratar e quais métodos terapêuticos utiliza.
Anote as respostas e pesquise essas informações para verificar se a abordagem utilizada está de acordo com as boas práticas profissionais.

Entenda os termos usados pelos profissionais
Quando encontrar determinados termos no perfil de um terapeuta, é importante entender o que eles podem significar na prática.
O campo da saúde mental frequentemente utiliza expressões que podem ter um significado diferente daquele que uma pessoa de fora da área imagina.
Por exemplo, alguém pode ler “positividade sexual” e imaginar que o termo se refere a uma visão positiva da sexualidade dentro do casamento. Entretanto, no campo da saúde mental, a expressão costuma indicar abertura e aceitação de diferentes práticas sexuais, desde que exista consentimento entre os envolvidos.
Da mesma forma, o termo “afirmativo” pode ser entendido simplesmente como uma indicação de que o terapeuta apoia o indivíduo. Porém, muitas vezes significa que o profissional aceitará e validará a identidade ou os comportamentos descritos pela própria pessoa, sem necessariamente explorar experiências e circunstâncias que possam ser relevantes para compreendê-los.
Caso um terapeuta utilize termos como “trauma religioso”, “desconstrução religiosa” ou “transição de fé”, tenha em mente que muitos desses profissionais não são neutros em relação à religião, especialmente quando se trata das chamadas religiões de “alta demanda”.
Alguns terapeutas realizam um trabalho valioso nessas áreas, mas o campo da saúde mental, de maneira geral, tende a assumir uma postura mais cética e distante dos valores cristãos tradicionais.
Pelo que tenho observado, especializar-se em “transições de fé” muitas vezes significa ajudar pacientes a deixar sua religião.
Se questões religiosas estiverem entre suas preocupações, faça perguntas para compreender melhor a perspectiva e a abordagem do terapeuta e esteja atento também às suas próprias impressões espirituais diante das respostas.

Proteja sua fé e seus relacionamentos familiares
Também é importante procurar terapeutas que não tentem enfraquecer seu desejo de fortalecer seus relacionamentos ou desenvolver sua fé.
O fato de um terapeuta ser santo dos últimos dias, por exemplo, não significa necessariamente que ele compartilhe dos valores ensinados pela Igreja.
Já conheci terapeutas santos dos últimos dias que acreditam que a pornografia é inofensiva ou até benéfica em determinadas situações e que consideram os ensinamentos religiosos contrários à pornografia um problema maior.
Outros terapeutas santos dos últimos dias discordam abertamente das doutrinas da Igreja relacionadas a gênero e sexualidade.
Alguns profissionais também interpretam qualquer sentimento negativo relacionado a determinados comportamentos sexuais como uma “vergonha” prejudicial, sem fazer distinção entre a vergonha nociva e um sentimento saudável de culpa.
No passado, confiei em alguns terapeutas e cheguei a recomendar seus serviços a outras pessoas. Porém, mais tarde, alguns deles mudaram sua forma de trabalhar e passaram a compartilhar suas próprias dúvidas e discordâncias religiosas com pacientes que estavam em momentos de vulnerabilidade.
Por isso, tenha cuidado ao escolher com quem compartilhar crenças e experiências espirituais profundamente pessoais.
Também é importante lembrar que nem todos os terapeutas reconhecem da mesma forma a importância dos relacionamentos familiares.
Atualmente, romper completamente o contato com familiares que não apoiam determinadas decisões ou possuem opiniões consideradas desagradáveis tornou-se uma tendência em alguns contextos.
É claro que alguns familiares podem ser realmente abusivos ou prejudiciais e, nesses casos, manter distância pode ser apropriado ou até necessário.
Porém, os relacionamentos são complexos. Dentro do ambiente da terapia, pode ser fácil demais concluir que encerrar uma relação é a solução adequada para um conjunto complicado de problemas. Procure um terapeuta disposto a ajudá-lo a fortalecer os relacionamentos familiares sempre que isso for possível.
Se você estiver procurando terapia para um filho menor de idade, pergunte como será sua participação no tratamento.
Como pai ou mãe, você deve ser um parceiro no processo terapêutico e deve ter a possibilidade de manter algum nível de comunicação com o profissional. Também pode ser útil perguntar sobre a possibilidade de participar de algumas sessões com seu filho.

Como tomar a decisão
Depois de decidir experimentar o atendimento com determinado terapeuta, geralmente é uma boa ideia participar de algumas sessões antes de concluir que aquele profissional não é adequado para você.
No entanto, se houver sinais claros de que seus valores não serão respeitados, é perfeitamente aceitável procurar outro terapeuta a qualquer momento.
Bons terapeutas trabalham com cuidado e ética e estão comprometidos em ajudar seus pacientes a alcançar resultados significativos para sua saúde mental.
Eles reconhecem que seus pacientes podem ter valores, crenças e experiências de vida diferentes dos seus e procuram compreender e respeitar essas diferenças enquanto os ajudam a alcançar seus objetivos.
Assim como acontece com muitas outras decisões importantes da vida, encontrar o terapeuta certo exige reflexão e cuidado. Quando buscamos ajuda para desafios profundamente pessoais, dedicar tempo para encontrar o profissional adequado vale o esforço.
Fonte: Public Square
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Post original de Maisfé.org
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