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Sexualização infantil: Nossos filhos estão em risco?

Não faz muito tempo, meu filho adolescente me fez uma pergunta surpreendentemente perceptiva: “Por que as pessoas falam mais sobre modéstia para meninas do que para meninos?”

Minha resposta veio direto de uma tarde frustrante que eu tinha acabado de viver no shopping com minha filha pré-adolescente, comprando roupas para a volta às aulas. Fui disposta a comprar algumas peças para o novo ano letivo. Voltamos as duas exaustas, ela porque quase não conseguiu nada, e eu porque quase não havia nada que eu estivesse disposta a comprar.

“Filho, é porque o que é oferecido para meninas e o que é oferecido para meninos é muito diferente”, expliquei. Mostrei a ele a própria roupa, camiseta e bermuda de basquete até o joelho, o padrão para um adolescente.

Mas basta entrar em uma loja ou em um site voltado para meninas, e a história é completamente outra. Nossas filhas são oferecidas tops tomara-que-caia, biquínis fio-dental, shorts curtíssimos e tops com bojo, já a partir dos 10 anos. Sites populares de compras baratas, como Shein e Temu, ainda trazem fotos provocantes de como usar essas peças mínimas.

Mães e pais como eu não conversam sobre roupas com as filhas mais do que com os filhos porque não queremos que outras pessoas vejam o umbigo ou os ombros delas à mostra. Conversamos porque a mensagem que chega aos nossos filhos parece óbvia: para as meninas, ser bonita é ser sexual; para os meninos, meninas sexualizadas são bonitas. É essa mensagem que estamos tentando interromper antes que ela crie raízes.

Mas a roupa é só um fio visível de um problema bem maior: a sexualização incessante das nossas crianças, vinda de praticamente todos os lados. Como mãe de três adolescentes, vejo meus filhos bombardeados a cada instante por imagens, temas e conteúdos sexuais. Redes sociais, reels, anúncios, videogames e pornografia explícita estão ao alcance de um clique, mesmo com controles parentais (aquela desculpa esfarrapada) ativados. As perguntas para os pais preocupados são diretas: como chegamos até aqui, e o que fazer agora?

Um problema em todos os lugares

Hoje, imagens sexuais aparecem onde quer que haja crianças. Filtros do Snapchat transformam crianças instantaneamente em versões de estrelas pornô, e a aba Discover do próprio Snapchat vem recheada de cliques sexuais. Animes trazem imagens sexualizadas, sobretudo de meninas, e têm todo um subgênero de pornografia animada.

Games oferecem uma vasta gama de personagens sexualizados, geralmente mulheres com pouca roupa, mas também bastante homem sarado e sem camisa. Um streamer famoso do YouTube usa um avatar masculino cuja “roupa” é só uma tira cruzando o peito e uma calcinha feminina.

O Roblox, um dos jogos mais populares entre crianças, enfrenta problemas recorrentes com conteúdo sexual e predadores. E mesmo quando o conteúdo em si é inofensivo, os anúncios que aparecem no meio não são: propagandas de conteúdo adulto pipocam em aplicativos e vídeos infantis, e os algoritmos garantem que elas voltem sempre.

Depois há o acesso hoje corriqueiro à pornografia propriamente dita. Estatísticas atuais colocam a idade média de exposição entre 11 e 13 anos, com alguns estudos registrando o primeiro contato aos 9 anos. Quase sempre essa primeira exposição é acidental, para a criança, mas não para quem produz o conteúdo.

Uma investigação disfarçada recente mostrou funcionários do PornHub discutindo o que crianças de 12 anos poderiam “aprender” com o conteúdo do site e como isso poderia moldar seus impulsos sexuais.

A mesma empresa luta contra a aprovação de leis de verificação de idade que bloqueariam o acesso de menores. Crianças, nesse contexto, são tratadas como um público-alvo, não como espectadores acidentais.

Na adolescência, quase 85% dos meninos e quase 60% das meninas já viram pornografia, na maioria das vezes pelo celular. Isabel Hogben, de 16 anos, escreveu um ensaio revelador para a The Free Press sobre o quanto o consumo de pornografia é comum entre seus colegas. Ela dá voz adolescente ao que pesquisas já documentam: crianças e adolescentes não apenas veem pornografia, eles acreditam nela.

“O cérebro pré-adolescente e adolescente não sabe que é tudo fake. Ele acredita de verdade no que vê. Eu mesma acreditava”, escreve Isabel. “A maioria dos meus amigos acha que isso é normal.”

Crianças estão se tornando insensíveis ao comportamento sexual em geral, ao mesmo tempo em que aprendem suas formas mais aberrantes, passando a acreditar que é assim que relacionamentos “normais” funcionam.

Jovens também estão produzindo sua própria pornografia: trocar nudes é visto como algo comum entre adolescentes, que consideram isso normal e até esperado em um relacionamento, ou mesmo em um simples flerte. Com frequência, isso termina em consequências devastadoras, com adolescentes sendo extorquidos ou hostilizados com imagens que eles mesmos produziram, ou até com fotos falsas geradas por inteligência artificial.

Como se não bastasse, a sexualidade infantil vem sendo normalizada em espaços tradicionalmente considerados seguros para crianças. Currículos escolares, literatura infantil, programação de TV e até legislaturas e tribunais estaduais têm reforçado a ideia de que a sexualidade seria, de alguma forma, essencial para uma infância saudável.

De onde vem tudo isso

Entender como chegamos a esse ponto é complexo. Em parte, o cenário atual é uma evolução natural da revolução sexual que começou já no início do século 20, com Sigmund Freud e a era do jazz, ganhou força nos anos 1960 e 70, e saiu totalmente do controle com a chegada da internet. Mas, de forma mais preocupante, o envolvimento de crianças nunca foi um efeito colateral dessa liberação sexual, para alguns de seus idealizadores, era o objetivo final.

Já no início da internet, o potencial perigoso da rede foi percebido, e organizações antipornografia pressionaram o Congresso dos Estados Unidos, na década de 1990, a aprovar o Communications Decency Act de 1996. A lei foi imediatamente contestada pela União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) e, em 1997, a Suprema Corte a derrubou por unanimidade, em nome da liberdade de expressão.

O Congresso reagiu rápido com o Child Online Protection Act (COPA), de 1998, novamente contestado de imediato pela ACLU. Um juiz federal voltou a decidir a favor da liberdade de expressão, afirmando, no que se tornaram palavras famosas (e infelizes), que já existia “uma alternativa mais eficaz e menos restritiva” para proteger crianças: softwares de filtragem. O caso se arrastou em recursos, e em 2009 a Suprema Corte se recusou a reverter a decisão. Nenhuma outra ação foi tomada desde então.

Livres dessas amarras legais, as empresas de tecnologia passaram a ter liberdade para maximizar o engajamento sem se preocupar com proteções. Vinte e cinco anos depois, aplicativos usados por crianças todos os dias aparecem com frequência na “Dúzia Suja” (Dirty Dozen), lista anual do Centro Nacional sobre Exploração Sexual (NCOSE) que nomeia empresas que colocam crianças em risco de exposição a conteúdo sexual ou predadores. Em 2023, a lista incluía Roblox, Snapchat, Instagram, Discord e Spotify.

Arturo Béjar, ex-funcionário do Instagram, testemunhou ao Congresso americano, em novembro de 2023, que a Meta (empresa controladora do Instagram) deliberadamente deixa de proteger adolescentes de assédio sexual e investidas indesejadas.

“Durante todo esse tempo, houve um dano extenso acontecendo com adolescentes, e a liderança da empresa sabia disso, mas optou por não investigar nem resolver os problemas”, disse Béjar. “Olhando em perspectiva, é provável que seja o maior caso de assédio sexual em massa contra adolescentes já registrado.”

Quanto à tal “alternativa mais eficaz” dos softwares de filtragem, qualquer pai ou mãe que já tentou configurar controles nos dispositivos dos filhos sabe: quando esses controles existem, raramente são fáceis de configurar, ou eficazes.

Empresas de filtragem vivem correndo atrás das mudanças feitas pela Apple ou pelo Android, e por isso costumam ficar sempre um passo (ou vários) atrás. Muitos pais se sentem sobrecarregados com o esforço necessário para gerenciar o consumo digital dos filhos e simplesmente confiam que plataformas como o YouTube Kids já cuidam da proteção infantil. (Não cuidam.)

Teorias do século 20 moldando o presente

O lado da “criação” desse problema tem uma raiz ainda mais preocupante. Freud foi o primeiro a propor que o desenvolvimento infantil deveria ser entendido em estágios psicossexuais, incluindo sua teoria do Complexo de Édipo. Seu aluno mais notório, o psicanalista austríaco Wilhelm Reich, cunhou a expressão “revolução sexual” em um tratado de 1936 com esse mesmo título.

O pesquisador americano Alfred Kinsey ganhou o apelido de “pai da revolução sexual” por meio de estudos altamente controversos, feitos em meados do século 20, que incluíam experiências sexuais envolvendo crianças. Outros, como Norman O. Brown, seguiram essa linha, tendo papel central na explosão do “amor livre” das décadas de 1960 e 70 com sua própria obra sobre sexualidade.

Esses pensadores compartilhavam um tema em comum e preocupante, resumido por Brown: “Nossos desejos reprimidos são os desejos que tínhamos, sem repressão, na infância; e eles são desejos sexuais.” O objetivo comum era libertá-los. Kinsey acreditava que “o contato sexual seria uma parte normal do crescimento para crianças em uma sociedade menos inibida”, e Reich detalhou como essa “libertação” deveria acontecer em um livro ao qual deu o título arrepiante de Children of the Future (Filhos do Futuro).

De modo geral, a sociedade sempre manteve certas barreiras protetoras: comportamento sexual envolvendo uma criança continua sendo definido como abuso abominável, moralmente repugnante e claramente ilegal. Como sociedade, ainda acreditamos que “melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse lançado ao mar, do que escandalizar um destes pequeninos” (Lucas 17:2).

Mas essas visões de sexólogos do século 20 estão, aos poucos, entrando em espaços do século 21 dedicados às crianças. Na Alemanha, uma associação profissional de sexualidade recomendou que creches criassem “salas de exploração corporal” para crianças pequenas, incluindo nudez e “jogos sexuais”. Na Dinamarca, na Holanda e no Reino Unido, um programa de TV chamado Naked Education ensina adolescentes sobre o corpo humano e depois mostra um painel de adultos se despindo completamente diante deles.

Uma professora universitária nos Estados Unidos ganhou repercussão ao dizer que crianças deveriam ver genitais de adultos regularmente, de forma “casual e normalizada”. E há também um esforço para substituir o termo “pedófilo” por “pessoa atraída por menores” (MAP, na sigla em inglês), na tentativa de retirar o estigma da atração sexual de um adulto por crianças.

O que é a “pedagogia queer”

Não é possível ter uma conversa honesta e completa sobre a sexualização infantil sem falar da teoria e da pedagogia queer. A teoria queer, como campo acadêmico, busca “romper binários dominantes e normalizadores”, tratando essas normas como opressoras. A pedagogia queer é a aplicação prática dessa teoria em sala de aula.

Isso aparece de forma clara em um artigo acadêmico de 2010, intitulado “Recognizing and Utilizing Queer Pedagogy”, no qual os autores citam Kinsey logo na abertura e explicam que a simples luta por aceitação se transformou na “redefinição da identidade sexual e da própria sexualidade”. Segundo eles, “entende-se que os educadores tanto sustentam o status quo quanto definem, ou redefinem, o que é classificado como ‘normal’ em suas salas de aula, e, por extensão, na sociedade em geral.”

Esse raciocínio aparece hoje nos National Sex Education Standards (Padrões Nacionais de Educação Sexual) para o ensino do jardim de infância ao ensino médio nos Estados Unidos, adotados por distritos escolares em todo o país, incluindo conteúdo sobre orientação sexual e identidade de gênero já a partir do jardim de infância.

Entre os grupos que ajudaram a criar esses padrões está a SIECUS: Sex Ed for Social Change, cuja missão é descrita assim: “A SIECUS promove a educação sexual como um instrumento de mudança social, trabalhando por um mundo em que todas as pessoas possam acessar e desfrutar de sua própria liberdade sexual e reprodutiva.” Como esses padrões são voltados a currículos do jardim de infância ao ensino médio, há um eco inquietante de Reich, Kinsey e Brown nessa referência a “todas as pessoas”.

Outro exemplo é o Drag Story Hour, programa oferecido a escolas, bibliotecas e livrarias, em que drag queens leem histórias (geralmente com temas queer) para grupos de crianças. O programa já teve parcerias com PBS, Disney e Hulu, entre outros, e se descreve como “uma extensão generativa da pedagogia queer para o mundo da educação infantil”, que busca, em suas próprias palavras, “desestabilizar ativamente a função normativa da escolarização” por meio de uma “educação transformadora” e da “imaginação queer” no contexto da primeira infância.

Essa mesma “imaginação queer” também aparece na já conhecida agenda de representação LGBT+ da Disney, no desfile do orgulho cantado em Blue’s Clues, nas coleções de diversidade da Scholastic e em professoras do ensino fundamental que promovem leituras com essa temática em sala de aula. A lista de leituras recomendadas de 2023 da American Library Association para adolescentes inclui títulos como New Queer Fairy Tales, uma antologia de romance queer e um guia introdutório sobre assexualidade.

Uma das fundadoras do Drag Story Hour, conhecida como Lil Miss Hot Mess, resume o objetivo da pedagogia queer: “Ela convida, de forma criativa, as crianças a construir comunidades mais acolhedoras para o conhecimento e a experiência queer.” Em outras palavras: as crianças são vistas como ferramentas para construir o futuro que esses adultos desejam criar.

preparar filhos para a missão

“Nada pode substituir você”

Diante de tudo isso, é fácil um pai ou uma mãe se sentir sobrecarregado e sem armas para lutar. Mas há esperança.

Andrew Young era animador da DreamWorks quando percebeu algo preocupante: os filmes em que trabalhava traziam um subtexto estranhamente antifamília, com vilões insanos defendendo mensagens pró-família em falas propositalmente absurdas, como se essas ideias fossem coisa de louco. Ao confrontar a diretoria do estúdio, Young descobriu que suas observações estavam certas, e que aquilo era intencional: uma forma de engenharia social. Chocado, ele acabou abrindo mão de um emprego lucrativo, a única opção compatível com sua consciência.

Ao contar sua história, Young destacou o único ponto fraco no plano da DreamWorks: “Nada pode substituir você. Foi isso que eles descobriram. Nada consegue substituir a influência e o exemplo de um pai ou uma mãe estável”, reconhecendo que a engenharia social só se enraíza “em um vazio de influência”.

Um estudo recente do Gallup em parceria com o Institute for Family Studies confirma essa percepção: “O tempo de tela não tem associação com problemas de saúde mental em adolescentes que demonstram alto autocontrole e têm um relacionamento forte com pais que os supervisionam.”

Ou seja: a esperança somos nós, os pais.

“Influência”, “exemplo”, “relacionamento forte” e “supervisão” são ferramentas poderosas para quem é pai ou mãe. É nosso papel ajudar os filhos a seguir a admoestação de Paulo e buscar tudo o que é “verdadeiro”, “honesto”, “justo”, “puro”, “amável” e “de boa fama” (Filipenses 4:8). É também nosso papel ajudar nossos filhos a permanecerem conectados ao mundo real, grande parte dessa perniciosidade entra pelas telas, e quanto mais tempo as crianças passam no mundo concreto, tátil, menos espaço essas forças têm para alcançá-las.

Controles parentais e aplicativos de filtragem podem ser imperfeitos, mas são melhores do que nada, e vale a pena continuar usando-os: a Apple oferece controles e restrições de conteúdo em seus aparelhos, apps como Snapchat e Instagram já têm configurações familiares, serviços como Bark e Qustodio oferecem filtragem e monitoramento, e roteadores como o Gryphon bloqueiam conteúdo antes mesmo que ele entre na rede de casa.

Em questões de sexualidade, os pais precisam ser a primeira, a mais constante e a mais importante fonte de informação para os filhos. As crianças vão aprender de algum jeito; cabe aos pais decidir se elas vão aprender com eles, com a internet ou com os amigos, provavelmente será uma mistura de tudo isso. Mas nem a internet, nem os amigos, vão transmitir valores de família.

Também é importante agir em conjunto com outros pais. Em 2022, mais de 20 mil pais preocupados pressionaram o Conselho Estadual de Educação de Utah a abandonar uma proposta de política de gênero que permitiria que crianças dividissem vestiários e dormitórios com base na identidade de gênero “autodeclarada” por cada estudante. Vinte mil pais são difíceis de ignorar.

Legisladores estaduais também vêm aprovando leis, como as de verificação de idade para sites de pornografia. Em uma ironia interessante, o próprio PornHub, o maior conglomerado de pornografia da internet, optou por bloquear totalmente o acesso ao site nesses estados, em vez de cumprir a exigência. Pode-se dizer que a missão foi cumprida.

Há também esforços para aprovar leis federais de proteção à infância nos Estados Unidos: o Kids Online Safety Act e a COPPA 2.0 buscam proteger menores de riscos on-line e seguem tramitando no Congresso americano.

Comunidades LGBT+ também têm se posicionado contra essa sexualização. A organização Gays Against Groomers não deixa dúvidas quanto à sua mensagem já no nome, e uma organização mais recente, a LGBT Courage Coalition, nasceu justamente reconhecendo como pode ser difícil se posicionar sobre o tema. Ambas compartilham a mesma mensagem direta: parem de sexualizar crianças em nome da causa LGBT+.

Esse apoio é bem-vindo e necessário. Mas, no fim das contas, tudo volta para nós, pais e mães. À medida que nossos filhos navegam por esse mundo cheio de riscos, esperamos que um dia possam dizer, como Enos: “as palavras que frequentemente ouvira de meu pai […] penetraram-me profundamente o coração” (Enos 1:3) — e, como os jovens guerreiros de Helamã, que “não duvidamos de que nossas mães o soubessem” (Alma 56:47–48).

Fonte: Public Square

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Post original de Maisfé.org

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